quinta-feira, 29 de março de 2012

HISTÓRIA DO TEATRO II – teatro romano: nada se cria tudo se renova




O interesse do Estado grego facilitou para o teatro uma produção cênica relacionada intimamente a interesses próprios, fomentando formas teatrais eruditas, em contraposição não há relatos sobre produções populares. Já o Estado romano, muito preocupado com a questão bélica, mal interferiu na questão cultural. Mesmo com um pequeno embrião teatral que surgiu quase que simultaneamente ao grande influenciador grego, Roma deixou a cultura em segundo plano e o gosto popular encarregou-se de manifestar formas culturais “marginais”. A predominância é a comédia que durante o Império Romano (de 27 a.C. a 476 d.C.) a cena é dominada por pantomimas, exibições acrobáticas e jogos circenses. Houve também durante o longo período histórico de dominação dos romanos o surgimento das comédias eruditas escritas por Plauto (Titus Maccius Plautus, 254-184 a.C.), suas comédias – “Stichus” (200 a. C.) ,Miles Gloriosus(197 a. C.), “Poenulus” (189 a. C.), “Casina” (180 a. C. ) e Terêncio (Publius Terontius Afer, 190-159 a.C.), suas comédias – “Andria”, “Hecyra”, “Phormio”, etc  foram escritas entre os séculos III e II a. C. e suas personagens estereotipadas inspiram o surgimento, por volta do século XVI, aos personagens fixos da Commedia dell'Arte. Nesse mesmo período eram desenvolvidos os seguintes gêneros de comédia popular:
· fescenino - nome originário da palavra latina fescenium= amuleto, normalmente fazendo referência ao falo (pênis); ou de Fescennia, cidade etrusca, caracterizando esse gênero com obras organizadas a partir de: improvisação, canto, dança, recitação e muitas obscenidades
· satura - nome derivado do verbo latino saturare= fartar, encher ou de laux ou lanx satura. Trata-se de um gênero organizado a partir de improvisação: falada, cantada, dançada; música, recitação, bufonarias (espécie de palhaçada). Era um espetáculo misto, que “tinha de tudo um pouco”
· atelana - nome derivado de Atellana, região do sul da Itália – Sicília ou da região de Nápolis (sic). Trata-se de peça curta, farsesca e que, originalmente, satirizava tipos e costumes da sociedade de modo bastante apimentado. Composta a partir de improvisação, tipos fixos, dança e música paródica. Ao passar do tempo passou por transformações, o gênero substitui a improvisação por textos escritos e roteiros chamados de canovaccio, os mesmos mais tarde utilizados pela Comédia dell´Arte. Os tipos fixos ou máscaras mais conhecidos foram: Maccus ou Stupidus; Bucco ou Baccus; Pappus; Dossenus; Baudus
· pantomima e mímica - derivação do grego - pantómimos e do latim - pantomimu. Uma ramificação da sátira com gêneros derivados das atelanas, substituindo-se o texto falado pelo gestual, linguagem universalmente entendida, facilitando o entendimento das cenas que eram articuladas a partir de confusões cômicas, os quiproquós

A tragédia é cheia de situações grotescas e efeitos especiais, o senador Sêneca é considerado o maior tragediógrafo romano (o único com obras na íntegra), escreveu obras para serem lidas e não montadas, retomando os mesmos mitos. Alguns imperadores sanguinários interferiam na concepção do espetáculo com alto grau de autenticidade exigindo cenas realistas com a execução de um condenado a morte como personagem, substituindo o ator no exato momento. Até os meados de 56 a.C. as encenações teatrais romanas eram feitas em teatros de madeira,  surgindo depois construções de alvenaria que ocupavam o centro da cidade. Ao abrir mão de interferir na produção teatral, o Estado romano investiu na construção das arenas para grandes espetáculos públicos. Dessa ideia surgem às lutas entre gladiadores, as batalhas navais, as corridas de quadrigas, as perseguições de animais aos opositores do regime, dado início aos espetáculos “panem et circenses” (pão e circo) que findou-se com a ascensão e o triunfo do cristianismo.

BIBLIOGRAFIA
 BERTHOLD, Margot. História Mundial do Teatro; tradução J. Guinsburg, Clóvis Garcia, et alii. 1ª Ed. São Paulo, Perspectiva, 2001.

GASSNER, John. Mestres do Teatro I; tradução e organização de Alberto Guzik e J. Guinsburg, 3ª Ed. São Paulo, Perspectiva, 1997.

PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro; tradução para a língua portuguesa sob a direção de J. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. São Paulo, Perspectiva, 1999.

TOZZI, Devanil, et alii. Teatro e Dança:repertórios para a educação – linha do tempo, v.1. São Paulo, FDE, 2010.

segunda-feira, 19 de março de 2012

CINCO MARIAS - uma brincadeira para todas as idades


É muito simples, faça você mesmo!!!
Modo de fazer:
Fazer saquinhos de tecido, medindo aproximadamente 4x3 cm. Costurar três lados, deixando uma abertura para pôr o recheio. Enchê-los de grãos de arroz, feijão ou de outra semente pequena. Costurar este último lado. Os saquinhos não devem ficar muito cheios.
Como jogar:
Pode ser jogado em duplas. Usar cinco saquinhos de tecido com enchimento de areia ou grãos, ou pedrinhas arredondadas. Seguem-se as regras básicas.

1ª etapa
- Jogar as cinco marias no chão.
- Escolher uma delas, que será jogada para o alto, enquanto pega-se uma das quatro, sem tocar nas demais. Esperar a que está no alto cair também na mesma mão.
- Repetir com todas as outras que estão no chão.

2ª etapa
- Jogar as cinco marias e tomar de novo uma delas.
- Jogar o saquinho para o alto e, agora, pegar de duas em duas as demais, sem tocar no outro par.

3ª etapa
- Jogar as cinco marias no chão e tomar uma delas.
- Jogar o saquinho para o alto e pegar primeiro um e depois três, de uma só vez.

4ª etapa
- Jogar as cinco marias e tomar uma delas.
- Jogá-la para o alto e, enquanto ela volta, pegar as quatro de uma só vez, aparando rapidamente também a primeira.

5ª etapa
- Com todas as pedrinhas na mão, jogar para o alto uma delas e deixar no chão as quatro restantes e tornar a aparar a que foi ao alto.

6ª etapa
- Com todas as pedrinhas na mão, jogar uma para o alto e colocar três sobre o chão.
- Aparar a que foi ao alto.
- Jogar de novo uma para o alto e deixar a outra no chão e aparar a que foi ao alto.

7ª etapa
- Com todas as pedrinhas na mão, jogar uma para o alto e deixar uma no chão.
- Aparar a que foi ao alto e jogar de novo, para deixar as duas restantes no chão e esperar a que foi ao alto.

8ª etapa
- Com todas as pedrinhas na mão, jogar uma para o alto e deixar uma no chão.
- Aparar a que foi ao alto e repetir até deixar todas no chão e aparar a que foi ao alto de novo.
Jogue com a família, amigos, vizinhos!

Contar pontos:
- Colocar as cinco pedrinhas na palma da mão, arrumando-as umas sobre as outras.
- Jogar tudo para o alto e aparar o quanto puder com o dorso da mão.
- Lançar novamente para o alto; o que se conseguir aparar com a palma da mão é o número de pontos conseguidos na série.

O número de pontos a ser atingido deve ser combinado entre os jogadores.

(BRANDÃO, Heliana; FROESELER, Maria das Graças V. G. O livro dos jogos e das brincadeiras para todas as idades)

Turismo e Oportunidades


terça-feira, 13 de março de 2012

A HISTÓRIA DO TEATRO I - Do Mito ao Rito: a origem do teatro

A difusão de um processo deve-se ao fato do indivíduo ter a necessidade de partilhar seus anseios. Desde o tempo das cavernas os indivíduos comunicavam-se através de desenhos e da gesticulação, com sua evolução tornou-se um animal linguístico, capaz de propagar pela oralidade todo conhecimento acumulado, difundido e perpetuando-o para as novas gerações.O teatro ocidental surge nos festivais religiosos quando se cultuava na antiga Grécia o deus Dioniso (Baco de origem latina) na forma de uma procissão chamada Ditirambo, um cortejo, um gênero pré-dramático, os primórdios do teatro de rua, remontando-se a partir do século VII a. C. onde mais tarde por volta de 538 a.C. no período clássico os Rhapsodós (rapsodo), um tipo de cantores “mambembe” que narravam os mitos; haviam também os festivais de teatro no período do governante Psístrato que apresentavam tragédias e drama satíricos. A partir de uma grande inovação o Ditirambo evoluiu para o Coro, com seus Coreutas, interpretes, dialogando com o Corifeu, cantando, dançando, contando a mitologia grega, tornando-se necessário a fixação de um local específico para tal evento, dando origem assim ao Théatron, que significa:lugar de onde se vê”, ou seja, plateia. No século V a. C. com o desenvolvimento dos rituais em homenagem aos deuses, principalmente os de Fertilidade, rituais, literatura e democracia contribuíram para a criação de um espaço físico estabelecido para reunir as pessoas, onde passaram a acontecer então as apresentações do coro, e,  a derivação desse nome veio a ser grafado para nós como Teatro, criando-se dessa forma a ação na história, onde reza lenda que Téspis, após um pilequinho de vinho subiu ao Timele, espécie de tablado (Thymele - altar em grego), dizendo ser o próprio deus Dioniso, o que chocou muitas pessoas que julgaram tal atitude como o maior dos sacrilégios. Depois de um tempo de proibições o período democrático da Grécia se estabelece e o livre arbítrio dos indivíduos passa a valer, com isso outras pessoas também subiram ao “tablado”; menos para as mulheres e escravos que não gozavam desse direito.  Por conta disso, Téspis é considerado o primeiro ator. Ele foi um Corifeu que se destacou do coro e, ao avançar até a frente do palco, travando um primeiro e fundamental diálogo entre um ator e o coro. Tempos depois foi ele levado para Atenas para se apresentar nas Dionisíacas, colocando-se à parte do coro como um solista e dessa forma surgiu o papel do Hypokrites ou respondedor.
O teatro, nesse primeiro momento, limitava-se a uma série de odes e danças em torno da imagem de algum deus, na maioria das vezes, o próprio Dioniso. Daí por diante surgiram os primeiros textos teatrais. As artes dramáticas passaram a ocupar um espaço maior na cultura grega e com o passar do tempo, sendo aceita e consequentemente tornando-se mais acessível aos cidadãos, caindo no gosto do povo e dessa forma a arte cênica passou a ser o principal entretenimento.

Tragédia
Surgiram então diversas fábulas e histórias para serem encenadas ao público. Essa forma inusitada de comunicar as histórias dramáticas ficou conhecida como Tragédia Grega (tragoi= bode + oidés= canto), realizada nos sacrifícios onde os “atores” utilizavam máscaras e túnicas para interpretar seus papéis. A tragédia passava-se em uma ampla plataforma chamada Proskénion (proscênio) de frente para o Théatron (plateia).
As Tragédias Gregas trabalhavam com o lado emocional do ser humano, o oposto do racional, além de ter uma grande preocupação com o aspecto visual cênico com efeitos obtidos pelas indumentárias (figurinos), o frequente uso das máscaras que distinguia claramente os personagens e de um recurso para calçar os pés denominado coturno, uma forma de calçado cênico para dar efeito de projeção quantitativa na estatura do ator que ficava bem distante das últimas fileiras da plateia. As apresentações cênicas eram compostas por um coro que narrava e tecia comentários a respeito da história central que era interpretada pelos atores principais. As Tragédias foram escritas por homens que marcaram seus nomes na história da humanidade. Os mais conhecidos são: Ésquilo (525 a.C.– 456 a.C.) autor de “Os Persas”, “Prometeu Acorrentado” e das Trilogias: “Oréstia- ‘Agamenon’, ‘Os Coéforos’, ‘Os Eumênides’”, “Sete Contra Tebas: ‘Laio’, ‘Édipo”, ‘Sete Contra Tebas’”, etc; Sófocles (495 a.C. – 405 a.C.), autor de “Édipo Rei”, “Antígona”, “Electra”, etc e Aristófanes autor de “As Nuvens”, “Plutão”, “As Rãs”, etc; Eurípedes(485 a.C. – 406 a.C.) autor de “Alceste”, “Ifigênia em Tauride”, “Medéia”, “Hipólito”, “Andrômaca” “As Troianas”, etc. Esses autores buscavam passar para o público a visão divina da natureza, expressavam a imagem dos deuses e as crenças do povo.

Comédia
Por incrível que pareça a comédia trabalha com o lado racional de nosso cérebro, pois ao analisarmos uma atitude descomedida, fora dos padrões naturais é que achamos graça, ação do pensamento lógico. Assim como na tragédia, a comédia surgiu das cerimônias Dionisíacas denominadas procissões Phalliká, ligada ao ato da reprodução e da vida que, segundo Aristóteles eram cortejos fálicos, também chamadas de Komoidía, formada por komoi (rural, do campo, e também perambulação) + odés = canto rural, canto perambulante, ato intrinsecamente ligado aos ciclos da agricultura e da fertilidade humana.      
A primeira escola grega de comédia surgiu fora da metrópole na Sicília, onde Epicarmo (530 a.C. - 440 a.C.) adquiriu a fama de fundador do gênero no mundo grego. A comédia foi inclusa nas Grandes Dionisíacas somente por volta de 488 a. C. sendo considerada inferior a tragédia, situação comprovada pela divisão dos júris nos espetáculos teatrais em Atenas, onde ser escolhido para compor a banca de jurados da tragédia era sinal de nobreza, enquanto o júri da comédia era formado por cinco pessoas escolhidas aleatoriamente na plateia.
A comédia era um gênero de crítica social contundente que abordava o cotidiano, os costumes e as tradições, comumente criticados e satirizados, não muito diferente das comédias contemporâneas. Dentre os principais autores podemos citar: Aristófanes (445 a.C. – 385 a. C.) escreveu “A Paz”, “Lisístrata”, “A Assembleia de Mulheres”, “Os Cavaleiros e Plutos”, etc; Menandro (340 a.C – 292 a.C.) autor de “O Intratável”, etc. O auge das comédias culmina com as obras de Aristófanes e Menandro, atingindo a decadência com a dominação dos macedônios. De sua origem até o declínio, a comédia grega passa por três períodos:
·  comédia antiga – o autor mais importante é Aristófanes, porém outros nomes fazem parte deste período – Cratino, Êupolis, Crates, Ferécrates e Magnes – estendeu-se aproximadamente de 500 a. C. - 400 a.C. com ênfase na sátira política, transpondo as linhas do impessoal ao admitir personagens do cotidiano ateniense com uso do coro e da parábase
·  comédia intermediária – período que entre 400 a. C. - 330 a. C, acontece uma importante fase de transição em que o coro desaparece. A peça “Pluto” de Aristófanes data desse período, bem como outros autores como Aléxis e Antífanes. Foi por volta desse período, aproximadamente 350 a. C. que surgiu um gênero intermediário de comédia que parodiava as tragédias, intitulada Hilaros
·  comédia nova – período que se inicia por volta de 300 a.C. com o destaque do autor Menandro, bem como outros autores como Dífilo e Filémon. Acontece nesse período uma profunda mudança do gênero, o surgimento de personagens fixos que substituiu a sátira política ao abordar o cotidiano de pessoas menos influentes, porém com certa fama na sociedade, ao invés dos políticos, militares e outros que perpetuavam de má fama

Tanto a Tragédia como a Comédia são gêneros que derivam de rituais, sendo que, o primeiro desenvolvia-se na cidade e o segundo, em áreas rurais onde se encontravam os parreirais. Conforme documentação, esses rituais eram chamados de falofóricos que em gregro (phallos=falo) em homenagem ao deus da fertilidade.
Surge também nesse ínterim o Drama Satírico, uma espécie de tragicomédia, um tipo de peça burlesca que era apresentada após a trilogia trágica com um personagem central, geralmente um dos heróis trágicos vistos na trilogia precedente, era caricaturado numa situação ridícula qualquer, criticado por um coro vestido de sátiros (personagens mitológicos meio-homem, meio-cavalo que formavam a corte de Dionísio). O mesmo autor da trilogia é quem escrevia os dramas satíricos, como parte integrante do concurso trágico. Utilizava-se de um gestual muito indecente.

Elementos do Teatro Grego
· arconte - o principal magistrado civil de Atenas, era quem administrava o mega Festival anual onde eram realizados os concursos dramáticos
· corego – homem de posses, assumia a função de produtor responsável pelas despesas referentes ao coro, músicos, figurinos e adereços, enquanto o Estado era responsável pela manutenção dos teatros, premiação e pagamento dos atores
· indumentária – são os figurinos, trajes ou roupas, comumente chamados, eram usados pelos atores para dar virtuosismo aos seus personagens, facilitando as representações femininas por homens, uma vez que a mulher não podia pisar no palco
· máscaras – elemento altamente simbólico, eram feitas de couro, pano modelado ou madeira, confeccionadas para projetar a voz com mais potência, além de ajudar a identificar os personagens masculinos e femininos. Elemento altamente sagrado, não era permitido que um ator adentrasse ao espaço sagrado de teatro sem sua máscara
· coturno – calçado projetado com uma sola de aproximadamente trinta centímetros de altura, usado pelos atores trágicos, ocasionando efeitos de grandeza além do humano mortal
· mimo – nomenclatura que designava os artistas improvisadores que se apresentavam nas praças, grafia que também designa a produção teatral popular grega
· personagem – palavra que deriva do grego: persona (máscara) e agon (que debate, que “fala” por si, que se apresenta). Há a assunção de papéis ao se passar por outro, não sendo ele mesmo com a máscara no rosto
· peripécia – leque de ações e fisicalizações que a personagem realiza no desenrolar da peça,uma tendência natural dos ser humano para alcançar seus objetivos; baseando-se em Hengel (1770-1831 A.D.)
· mimeses –  para Aristóteles é instintivo do homem a imitação,  é natural que o mesmo reproduza a realidade que o circunda, através do processo de representação. Afirma-se, normalmente, que o conceito de mimese corresponde à cópia, ver-imitar-aprender. Entretanto, é importante lembrar que o conceito pressupõe um duplo olhar, com Platão, o conceito aparece com certa conotação pejorativa, a mimese é concebida como cópia, sombra, escravização do homem ao mundo das aparências. Já Aristóteles contrapondo, desenvolve uma conotação conceitualmente positiva, indicando uma mobilidade criativa na essência das coisas, um esboço, uma ideia básica que caminha para a perfeição
Estética da arte dramática
Deve-se a Aristóteles os primeiros estudos sobre a estética teatral, pois esse passo foi importantíssimo para a organização da ação dramática nas encenações das tragédias, buscando-se a perfeição cênica, encontrando seu sucesso no processo catártico que conduzia o expectador em um processo de identificação da plateia com o contexto dramatúrgico, uma forma tão eficaz que é utilizada até hoje para cativar o telespectador nas novelas veiculadas pelos massivos meios de comunicação.
O processo catártico foi o meio pelo qual se cativou a plateia com os efeitos que se perduram até hoje, inicialmente como expurgo no sentido restrito da palavra Kátharsis, uma forma de se purificar os sentimentos ruins. Mais tarde como forma de arrebatar a plateia todo um trabalho cênico de voz e expressão corporal tornou-se necessário para “encurtar” a distância entre palco e plateia.  A catarse faz com que o público saia de alma lavada, com dois elementos básicos criados por Aristóteles (384 a. C. - 322 a.C.), o protagonista (herói) e o antagonista (vilão), utilizando-se de tramas e enredos entrelaçados de componentes articulados e de formas intrigantes, envolvendo a ficção (mitos) e a realidade (conjuntura social), buscando uma argumentação ética, através de uma lição de vida e a moralidade

Com uma observação meticulosa e alto nível de criticidade, Aristóteles desenvolveu a partir da Poética os seguintes princípios:
· pensamento – de forma livre sua subjetividade permite que a mente do autor expanda-se, compreendendo a sociedade de forma atemporal, sem prejulgamentos, distante da realidade tátil, conectando o contexto histórico a época vivenciada
· fábula – a pilastra base que se aproveita de histórias próximas à realidade tátil, cujo enredo procura cativar o espectador com começo (introdução)-meio (desenrolar)-ápice (clímax)-desfecho (fim)
· caráter – personificação de arquétipos, a base para a construção de qualquer história, a figura do protagonista e do antagonista. A ideia de vilão e herói foi utilizada até o século XIX, onde a partir de então surgiram à figura do anti-herói e do vilão às avessas, o primeiro deixa em evidência o egoísmo, a vaidade, a vingança, as fraquezas humana em detrimento das qualidades do herói trágico, já o segundo, o vilão as avessas com um aspecto nada malévolo, acaba favorecendo suas pseudo-vítimas com toda a sua atrapalhação, muitas vezes acaba sendo o principal atingido pelos seus atos, ou até mesmo se convertendo para o bem. Alguns exemplos: Anti-heróis: Dom Quixote, O Justiceiro, Batman, Zorro – Vilões as Avessas: Capitão Jackie Sparrow, Gato de Botas, Dick Vigarista, Meu Malvado Preferido
· melodia – a tragédia utilizava-se da melodia para acompanhar o texto poético nos intervalos entre dois atos. Somente a partir do século XIX é que a música começou a fazer parte, dando ênfase em determinado trechos importantes, sensibilizando e “preparando” a plateia para a emoção de determinada cena, como por exemplo, a sonoplastia que se utiliza amplamente de efeitos sonoros, trechos musicais, pausas, vozes em off, músicas incidentais, etc
· linguagem – a função do dramaturgo teve um papel fundamental na longevidade das obras teatrais e na difusão dos textos dramatúrgicos por gerações até os dias de hoje, ajudando a escrever a história do teatro, garantindo a representação de algo próximo à concepção do autor, diferentemente do conhecimento compartilhado pela oralidade com uma propensão maior para a subtração da ideia original e até mesmo central do texto. O roteiro traz em si uma maior confiabilidade, como uma obra de arte assinada por seu autor que pode retratar algumas ações ao utilizar as rubricas; elemento que fornecem indicações cênicas, geralmente entre parênteses. Em momento algum queremos dizer que é errado improvisar, como é o caso da Comédia dell´Arte que se utiliza de um roteiro básico, o Canovaccio
· encenação – não queremos aqui demonstrar se a direção é melhor que a encenação, ou vice-versa, queremos mostrar apenas que existem diferentes formas de se assumir a concepção de um espetáculo. A encenação no sentindo original da palavra nos remete a montagem cênica identificada pela tríade: ação-tempo-local (o que? quando? onde?) que interrela0ciona-se com as abordagens do autor. No entanto nossa contemporaneidade nos trás estudos mais minuciosos sobre a encenação, apresentando algumas diferenças entre a leitura do diretor textocêntrico e a releitura do encenador que explora outras possibilidades ao transpor o texto dramatúrgico sendo atemporal com foco no espaço, contrapondo-se ao teatro verborrágico que se apoia nas rubricas do dramaturgo. É sabido que a direção teatral também se utiliza de recursos cênicos (iluminação, sonoplastia, figurinos, etc) para cumprir os pré-requisitos textuais, podendo também a encenação utilizar-se dos mesmos recursos para ampliar ou contrapor a intenção do autor, desconstruindo cenas e até mesmo levantando questionamentos do texto em sim. Além dos elementos tradicionais que encontramos em uma montagem, o encenador pode utiliza-se da ludicidade para conseguir a ação físico-psicológica, exigindo dos atores a presença de corpo e alma ao gestualizar, ampla ou minimante os macros e microgestos carregados de significantes e significados, que vão da forma sublime ao grotesco. A assinatura do encenador está na fragmentação do texto, muitas vezes com ênfase no subtexto. Ao chegar sem nada pronto o encenador proporciona uma imprevisibilidade no surgimento gradativo das cenas que são amparadas por sua mediação nessa busca pelo mundo das possibilidades cênicas
BIBLIOGRAFIA

BERTHOLD, Margot. História Mundial do Teatro; tradução J. Guinsburg, Clóvis Garcia, et alii. 1ª Ed. São Paulo, Perspectiva, 2001.

GASSNER, John. Mestres do Teatro I; tradução e organização de Alberto Guzik e J. Guinsburg, 3ª Ed. São Paulo, Perspectiva, 1997.

PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro; tradução para a língua portuguesa sob a direção de J. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. São Paulo, Perspectiva, 1999.

TOZZI, Devanil, et alii. Teatro e Dança:repertórios para a educação – linha do tempo, v.1. São Paulo, FDE, 2010.

II FECIBA divulga curtas selecionados para Mostra Competitiva


Na segunda versão do Festival de Cinema Baiano, foram submetidos 35 curtas-metragens à curadoria da Mostra Competitiva. 24 inscrições vieram da capital baiana, as outras onze, foram das cidades de Itabuna, com 03 inscrições, Ilhéus, 02 inscrições, além das cidades de Feira de Santana, Vitória da Conquista, São Félix, Palmeiras, Gandú e Itajuípe, cada uma com 01 inscrição.

A MOSTRA COMPETITIVA DE CURTA-METRAGEM, irá premiar, por meio de voto popular, o melhor curta dentre os selecionados com R$ 2.000,00 (dois mil reais), além do Troféu FECIBA, produzido pelo artista plástico Goca Moreno. Formado pela Escola de Belas Artes da UFBA, em Salvador, Goca possui um currículo vasto, com obras em coleções particulares nos EUA, França, Suíça, Alemanha, Itália e vários estado do Brasil. É o artista plástico que mais se destaca do sul da Bahia. Também receberão troféus, quatro curtas premiados por um júri técnico, que irá eleger a melhor direção, melhor roteiro, melhor fotografia e melhor direção de arte.

Abaixo a relação dos curtas participantes da mostra competitiva

“A máquina” de Íris de Oliveira
“A morte de DJ em Paris” de Igor Pena
“Breve Passeio” de Rafael Jardim
“Boi bandido” de Ernesto Molinero
“Corte Seco” de Matheus Vianna
“De pés descalços” de Sheylla Tomáz“Nunca Mais Vou Filmar” de Leandro Afonso


“Virou o jogo: A história de Pintadas” de Marcelo Villanova
“O cadeado” de Leon Sampaio
“O caso de Ester” de Susan Kalik e Thiago Gomes
“Olho de Boi” de Diego Lisboa
“Peixe-Boi” de Paula Gomes
“Premonição” de Pedro Abib
“Sala de Milagres” de Cláudio Marques e Marília Hughes

Os curtas serão divididos em dois Programas e serão exibidos em 04 sessões de modo sequencial, nos seguintes dias e horários:

Programa 01 - dia 03/04 ter – TEATRO MUNICIPAL DE ILHÉUS, às  14h00
Programa 02 - dia 04/04 qua - TEATRO MUNICIPAL DE ILHÉUS, às 14h00
Programa 01 - dia 05/04 qui - TEATRO MUNICIPAL DE ILHÉUS, às 18h30
Programa 02 - dia 06/04 sex - TEATRO MUNICIPAL DE ILHÉUS, às 18h30

Os vídeos não selecionados participarão da Mostra Paralela que acontecerá na Fundação Cultural de Ilhéus, dos dias 03 a 06 de abril, a partir das 14 horas.

*informações sobre filmes e fichas técnicas em: www.feciba.com.br ou com a Ascom do FECIBA

terça-feira, 6 de março de 2012

A Sociedade do Espetáculo 3 – ecos ressonantes: a resistência através da arte


As atrizes Potira Castro e Tânia Barbosa no "Inspetor Geral"

Quando fui convidado por Antônio Melo para escrever sobre Teatro-Educação no EuVejoArte, percebi que abordagens anteriores a linguagem cênica precisavam ser disseminadas, um fio condutor como uma base para a mediação de elementos da arte e da comunicação que entrelaçam-se nesse balaio cultural tão pouco valorizado na nossa cultura. Portanto, sempre que possível estaremos publicando esses adendos elucidativos. Boa leitura e reflexão!
Segundo Gilles Deleuze (1992), comunicação é transmissão e a propagação de uma informação, que nada mais são do que palavras de ordem, onde seus emissores estão acreditando que seus receptores creiam na propagação de suas palavras de ordem.
Quando uma autoridade qualquer nos comunica uma informação eles supõem que devemos crer e que temos a obrigação de crer, ou pelo menos fazer de conta que se crê, eles simplesmente pedem que nos comportemos como se acreditássemos, em suma a informação é a ferramenta de controle. Nos dias de hoje estamos entrando na sociedade de controle, onde as informações regem a sociedade, por isso o papel da arte é imprescindível, como forma de contrainformação, mas desde que seja convertida em forma de resistência. Qual a afinidade de uma obra de arte e o ato de resistência? Uma obra de arte não é um instrumento de comunicação, ela é um ruído que causa estranhamento no canal, como um rádio que esta fora de sintonia e faz com que você tire o traseiro do assento confortável e vá até o aparelho para certificar o que está acontecendo. A arte além de cumprir um papel estético ela tem a função de tirar as pessoas do estado de catatonia social, como que dando-lhes um chacoalhão para que acordem pra vida.
Para entender melhor o papel da comunicação na sociedade moderna precisamos nos remeter a uma questão anterior. O indivíduo, mediante sua evolução como ser linguístico, compreendeu a necessidade de convivência no coletivo. Para os pensadores contemporâneos existem três tipos de comportamentos coletivos (Oliveira, 2003), dentre eles:
- Multidão – origem biológica, comandada pelos ferormônios, isenta da racionalidade, ação cojunta como um só ser. Está atrelada aos primórdios da humanidade quando o indivíduo percebeu a importância de se viver em sociedade. Ações de revolta e manifestações em grandes multidões. São necessários quatro estágios para que ocorra essa comoção emocional coletiva
1º- acontecimento emocionante - um acontecimento de grande comoção social, como há pouco tempo ocorreu nos trens paralisados no rio de janeiro, a revolta dos usuários é um grande exemplo disso;
“moedura” – encontro da multidão e troca de ferormônios entre os indivíduos
ideia de ação – a exaltação coletiva é direcionada para um objetivo comum, quebrar o trem, por exemplo;
corpo uno – estágio em que a multidão torna-se uma só pessoa e agem com o mesmo fim, ações instintivas promovidas pelos ferormônios.
- Massa – surge na era industrial com o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, explorando o lado irracional e manipulável da multidão de forma individualizada, sem o contato físico. A massa acredita que pensa, porém apenas ecoa o que recebe dos meios de comunicação, que funcionam como uma agulha hipodérmica que injeta a substância diretamente na veia com resultado imediato. No intuito de ser aceito pelos seus pares o indivíduo repete costumes como a moda, por exemplo. Como a massa é dotada de um pseudo-pensamento ela necessita de um líder, um ídolo, um herói que lhes diga o que fazer guiando seus passos, por conta de suas mentes ocas e alienadas, verdadeiros indivíduos idiotizados e manipuláveis, escravizados pelos meios de comunicação de massa que acomoda cada indivíduo por conta de uma idolatria psicológica.
- Público – é o indivíduo maduro que raciocina e que possui uma percepção apurada da realidade, que defende a liberdade de expressão, seu conceito individualizado com alto grau de criticidade e reflexão, que reflete uma vida social mais questionadora, não se importando com opathos, diferenciada dos demais conceitos explanados anteriormente.
Sim, mas onde podemos chegar com tudo isso? É muito simples, dando nome aos bois podemos entender como se dá o processo de dominação através dos meios de comunicação e que podemos resistir através da propagação da cultura genuína pelo fazer artístico. Tivemos recentemente no Teatro Municipal de Ilhéus a apresentação da peça “O Inspetor Geral” do TPI (Teatro Popular de Ilhéus), que diferentemente dos espetáculos dos globais que por aqui se apresentam. Utilizando-se da arte como forma de resistência o grupo dirigido pelo brilhante Romualdo Lisboa, que não se preocupou em adocicar a peça ao adaptar na forma de cordel o texto de Nikolai Gogol. Ao invés de levar ao público o “consumo” de uma historia mais palatável, mostrou sim de forma criativa e corajosa todas as engrenagens de um sistema falido e que beneficia uma pequena minoria em detrimento do sacrifício de milhares de pessoas. Incomodando ao invés de acomodar, o TPI mais uma vez rompeu com o establishment, sendo original na contextualização dos diálogos adaptados a realidade local, provando sua competência para se apresentar no SESI de São Paulo, além do merecimento de concorrer ao Prêmio Shell de Teatro e de participar do Festival de Teatro de Curitiba, um dos mais importantes do Brasil. Aproveito a oportunidade para externar minhas congratulações a todos os atores que desempenharam perfeitamente seus papéis, no entanto gostaria de ressaltar o desempenho cênico dos atores que representaram os personagens: a Esposa do Prefeito, Tânia Barbosa, o Músico e Chefe dos Correios, Elielton Cabeça e o Criado Takaro Vitor.

REFERÊNCIAS

DELEUZE, Gilles. “Controle e Devir”. In: Conversações(1972 – 1990). Tradução de Peterz Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

OLIVEIRAIvan Carlo Andrade.Teorias da Comunicação. Brasil: virtualbooks.com.br, 2003.